5 Pontos-chave Sobre a Guerra na Ucrânia
O Luto das Crianças. O Que Fazer? Como Lidar?
![]() |
Não tem sido fácil.
Estávamos em confinamento, privados das nossas rotinas habituais e dos afetos, a lidar com uma realidade asséptica que não nos é natural, a tentar fazê-lo da forma mais integrada que conseguimos e aprendendo todos os dias com os erros, com as frustrações, com os momentos felizes e com as vivências que vamos tendo.
De repente, temos todos que lidar com a perda por morte de alguém que nos é tão querido. Como já disse aqui, eu perdi a minha sogra, o meu marido a sua mãe, os meus filhos a avó.
É sempre uma dor enorme, mas nesta fase, em que até os rituais, que nos ajudam a elaborar, a fechar ciclos e a começar a processar a dor, estão diferentes e limitados, em que as nossas rotinas habituais também não são possíveis, tudo fica ainda mais complicado.
Aqui em casa, fui eu que dei a notícia. Estava sozinha com eles quando o pai me ligou a dizer o que tinha acontecido, eles já sabiam que a avó se tinha sentido mal e que o pai tinha ido lá.
Juntei-os aos três na sala, eles perceberam pela minha expressão que alguma coisa não estava bem, e com a voz mais calma que consegui naquele momento, expliquei que a avó não tinha conseguido resistir, que já estava muito doente e que tinha morrido.
Foi um momento muito, muito angustiante. Eles choraram muito, a irmã, por vê-los a chorar daquela forma, chorava muito também. Eu fiquei ali com eles, ficámos todos ali abraçados e deixei-os chorar o tempo que precisaram, sem pressas.
Só depois vieram as perguntas: Se foi COVID? O que aconteceu? Como aconteceu? Se a podiam ver...
Tentei responder a tudo com a verdade e com o que eu sabia, e expliquei também o que se ia passar agora nestes dias, o que era o velório, como seria o funeral.
O Afonso pediu-me para ir comigo, queria estar lá onde a avó estivesse, queria vê-la. Expliquei-lhe também que noutra altura o caixão estaria aberto e poderia ver, mas agora com o COVID, não. O caixão estaria fechado e não podia ser aberto. Insistiu que queria ir na mesma.
O Francisco, desesperado com toda a situação, ainda começou a ficar mais assustado com tudo o que o irmão dizia. Perguntou-me se também tinha que ir. Expliquei-lhes que não. Expliquei-lhes que deviam pensar o que queriam fazer, onde queriam estar e respeitar isso. Eu iria respeitar o que me dissessem que os ajudava nessa altura.
O Afonso voltou a dizer que queria ir, o Francisco pediu para ficar em casa. Assim foi.
Antes de ir com o Afonso ao velório expliquei tudo o que me lembrei, como seria o que iríamos ver, garanti-lhe que iria estar sempre com ele e que viríamos embora logo que ele dissesse que queria vir. Expliiquei-lhe que às vezes pensamos que queremos uma coisa, mas chegamos lá e já não queremos, não faz mal, ele só tinha que me dizer e voltávamos para casa. Assegurie-me de que ele tinha percebido e lá fomos, sempre de mãos dadas, sempre a tentar lê-lo.
Foram momentos muito duros, vê-lo à procura da avó naquele sítio, de qualquer sinal, a olhar para o caixão fechado e a chorar de forma desesperada e ainda assim tão contida. Ficou a olhar a fotografia na entrada, e as pagelas com a fotografia da avó na mesa de entrada. Perguntou-me se estavam ali para se poder levar para casa, respondi que sim, pediu-me se podia levar uma e guardou-a como a um tesouro. Perguntou se podia escrever no livro de condolências e o que se escrevia ali. Expliquei. Escreveu o seu nome e desenhou corações e um anjinho.
Nem sei pôr por palavras o sofrimento que senti e pude testemunhar.
Viemos para casa quando ele me disse que podíamos vir, e no caminho perguntei-lhe se sabendo ele agora como é ter vindo ao velório da avó, se voltava a decidir vir ou se preferia ter ficado em casa. Respondeu logo e muito seguro de que quereria sempre vir e que também queria ir ao funeral. Assim foi.
Em casa encontrámos o irmão calado e com os olhos muito tristes e assustados. Perguntei se queria saber como foi ou se queria falar, não quis. Abracei-o e respeitei, um e outro, no seu sofrimento enorme e nas suas diferenças em senti-lo.
Dois exemplos de como as crianças poder reagir de formas tão diferentes e em como os devemos apoiar e respeitar.
Não tendo sido nada fácil, e sendo este um assunto tão pouco falado e tão inevitável nas nossas vidas, sugiro aqui algumas leituras, que em família, podem trazer o tema de forma a acedermos e a sabermos como abordar o que pensam e sentem as nossas crianças sobre a morte e a perda.
Aqui ficam algumas sugestões de livros:
Para Onde Vamos Quando Desaparecemos?
A Morte Explicada aos Mais Novos
Para os pais ajudarem os seus filhos nesta dura tarefa temos o livro (para pais)
e o jogo didático para jogar em família:
E também o filme Coco da Disney.
Não são temas nada fáceis, mas são temas centrais em que a nossa participação é preciosa para que possamos ajudar as nossas crianças a lidar com temas tão sensíveis.
Dia Nacional do Psicólogo - Ser Psicólog@ em Tempos de Pandemia
Viver em tempos de pandemia, sabemos agora que não é fácil. Cada um de nós sabe que dificuldades lhe trouxe. A mim particularmente, que sou psicóloga clínica e professora em pós-graduações onde os meus alunos são psicólogos e cada um de nós tem acesso a muitas vidas, verdadeiro acesso a muitas vidas, temos muita noção do peso que tudo isto tem tido. E este peso, o da dificuldade do outro com quem estamos a trabalhar, também pesa sobre nós.
Este ano a dificuldade tem sido tanta nas vidas que acompanho, que tomei a decisão de não tirar mais que meia dúzia de dias de férias para que pudesse trabalhar todas as semanas, para que pudesse ajudar na dificuldade de cada um tudo aquilo que consigo. E como eu, muitos.
E esta batalha continua, não sabemos por quanto tempo, não sabemos de que forma, não sabemos com que contornos. Sabemos que estamos cá para dar o nosso melhor.
Por tudo isso, soube ainda melhor ouvir estas palavras do Presidente da República, da Ministra da Saúde, do Ministro da Educação e de todos os outros nomes de referência que já aqui falaram e que vão falar ao longo do dia, que hoje aqui deixo e dedico a todos os psicólogos:
Feliz Dia Nacional do Psicólogo. Feliz dia, colega!
Manual de Sobrevivência Para Férias de Verão em Tempo de Pandemia
Kit Psicológico Para o Desconfinamento
Retratos De Uma Quarentena
![]() |
| Imagem |
Aqui em casa tudo vai continuar da mesma forma. Todos em casa, nós em teletrabalho e os filhotes em escola em casa. Um logística densa e a vivência de uns tempos estranhos sob muitas perspectivas...
Desde dia 13 de março que vim para casa, viemos todos em quarentena para tentarmos minimizar o impacto deste novo Corona Vírus.
Desde então continuei a trabalhar online e do outro lado da minha vida tenho testemunhado muitas formas diferentes de como a quarentena nos tem afetado a todos. Algumas muito particulares, todas muito curiosas e hoje partilho consigo algumas das que mais me fizeram pensar. São 3 situações, mas poderiam ser muitas mais. Elas representam partes de todos nós que merecem ser pensadas, vistas. Pensar sobretudo em como queremos que tudo seja depois, sobre como andamos tantas vezes absorvidos por coisas secundárias, como quando alguma das nossas certezas e seguranças nos falta, podemos olhar de facto para tanta coisa que estando sempre à nossa frente, nem sempre nos é visível.
D. Alice, reformada, 73 anos
... Sabe doutora, eu não posso dizer isto a ninguém, só a si aqui na consulta, mas sabe que isto da quarentena para mim até tem sido bom.A doença não, essa se eu pudesse acabava já com ela, mas a quarentena tem sido ótima! Olhe, há meses, muitos meses que eu não via tanto os meus filhos e netos como agora. Há anos que aqui estou sozinha e os meus filhos nunca têm tempo para me vir visitar, ou mesmo para ligar. Bem sei que têm vidas muito atarefadas, é verdade, mas os dias vão passando e nunca ligam. Eu quando lhes ligo sou logo despachada porque ou estão a trabalhar, ou estão a tratar das crianças, enfim, andam lá nas vidas deles.
Agora, não. Trouxeram-me para aqui o tablet e todos os dias os vejo, falo com eles com tempo e até me põem a ver as brincadeiras dos meus netos. Eu estou encantada!
Quanto a sair de casa, eu já passava semanas sem sair, e quando me queixava que me custava muito a sair e a ir às compras, que fico cheia de dores de empurrar o carrinho e de subir com os sacos, diziam-me que eu tinha que sair, que tinha que me esforçar para ir, que isto assim não era vida para mim... Acho que nunca me ouviram quando eu lhes falava das dores que sentia.
Agora perguntam-me de que preciso e ora um, ora outro, quando vão às compras compram as minhas compras, vêm deixar-me os sacos aqui à porta e ainda lhes faço adeus da janela. Isto tem sido tratamento de luxo! Por mim, a doença que vá embora depressa, mas a quarentena pode ficar.
São, trabalha na área financeira, 41 anos. Está neste momento em casa, em teletrabalho, mãe de 3 filhas todas em casa a frequentar a escola em casa.
Hora da consulta, envio mensagem para saber se posso ligar, recebo de volta a mensagem com resposta afirmativa, ligo a video-chamada. A imagem abre, olho para ela, conhecemos-nos há já uns meses, vimo-nos todas as semanas e eu nunca tinha visto este olhar. É um misto de angústia e alívio... Estarei a lê-la bem?Vou-a cumprimentando enquanto tudo isto passa na minha cabeça e dou-lhe a palavra.
- Ainda bem que podemos fazer estas consultas on-line e que chegou a hora da consulta. Tenho aprendido consigo a chorar, a não ter vergonha de o fazer e a sentir que não é um sinal de fraqueza, mas uma necessidade.
Nunca esta aprendizagem me fez tanta falta.
Hoje deixe-me só chorar... Preciso de chorar aqui consigo, preciso deste tempo só para mim (lágrimas em fio pelo rosto).
Passo o meu tempo a dizer a toda a gente que estamos bem, que isto da quarentena até é bom porque temos mais tempo para estarmos juntos, fiz um plano com todas as tarefas, as miúdas até são responsáveis, que tudo vai passar, que tudo vai ficar bem, ajudo-as nas tarefas, tento resolver os problemas infindáveis do trabalho, ligo aos familiares para ver se estão bem, organizo as listas das compras para sair o menos possível e faço quase todas as compras on-line, ajudo nas tarefas escolares, passo horas no fim de semana a fazer o horário de todas e revejo-o todas as noites quando revejo também os agenciamentos das reuniões do trabalho e como está a concretização dos objetivos, faço as refeições, limpo, e nunca sinto que consigo chegar ao que me proponho. Sinto que falho a todos o momento, mas nem ouso pensar nisto muito. É seguir em frente que amanhã será melhor, e não é, nunca é...
Mas agora não quero falar mais disto. Deixe-me só ficar aqui consigo e chorar...
Rute, Enfermeira, 28 anos
Tenho muito medo.Eu, que no início adorei ficar a trabalhar no internamento com doentes COVID-19, achei que aí sim eu ia fazer a diferença, e que não sendo de risco, isto nunca me iria afetar, hoje tenho muito medo.
Pensamos que é só uma gripe, só afeta quem é de risco, na televisão aparecem números e os nossos até são números bonitinhos em comparação com Espanha e Itália, mas depois chego ao trabalho e esses números têm nomes, e agonizam de formas que ainda não conhecemos bem, e estão sozinhos. Nós somos as únicas pessoas que vêem, os que conseguem ver-nos. Sem visitas, sem a família...
A doutora não acredita que se pode morrer de solidão?
E depois venho para casa e tenho medo de contaminar os meus. Já não os vejo há semanas e se sofro tanto pela distância, sofro também horrores por poder ser responsável por ver um dos meus a sofrer disto, como vejo os meus doentes.
Engraçado... Agora a aqui na consulta dou-me conta que também eu estou sozinha... tão sozinha...














